"O homem que reclama a liberdade está a pensar na felicidade"
A Espanha, tal como Portugal só tardiamente conseguiu assimilar o conceito de Iluminismo em toda a sua plenitude. Já há muito que as duas nações Ibéricas viam um relativo atraso em relação ao resto da Europa central. A pesar da grandeza dos seus territórios, enfrentavam uma crise profunda a nível estrutural. Como causas da crise posso identificar estagnação das estruturas sociais, conservadorismo religioso, estabelecimentos de ensino claramente ultrapassados, economia e mercado interno asfixiados. Mas como é possível? Perguntaram alguns. Não foram estas duas nações que deram a conhecer o Mundo? Não foram elas, quem primeiro interiorizaram o conceito de cosmopolitismo, de busca de felicidade?. De facto foram, porém foram ultrapassadas pelos acontecimentos. Imobilidade não é compatível com evolução, com desenvolvimento. O contributo Ibérico para o progresso científico, cultural e económico da Europa é assinalável, principalmente nos séculos XV, XVI. A partir de uma certa altura é a Inglaterra e mais tarde a França os grandes difusores de modelos culturais, sociais, políticos e até mesmo científicos. A expansão colonial permitiu o conhecimento de uma grande variedade de espécies de fauna e flora em muitos casos totalmente desconhecidos na Europa. Era patente o desconhecimento da fauna Americana e notório a existência um saber fantasiosos, irreal, baseado em lendas e superstições. A aventura expedicionária, visava a longo prazo um domínio mais eficaz dos territórios assim como uma inventariação dos recursos existentes. Deste modo difundiu-se por toda a Europa espécies botânicas com possível utilidade para a medicina, farmácia, agricultura. Mas não só, deu-se uma evolução qualitativa a nível da cartografia, matemática , geografia, astronomia. Surgem as primeiros trabalhos sobre história natural, onde aparecem referenciados os primeiros exemplares botânicos provenientes dos territórios coloniais. A título de exemplo posso referir Gonzalo Fernández de Oviedo(1478-15579 que descreve plantas como a canela peruana, o milho a coca, etc. No caso Português, temos Garcia da Orta (1501-1568), que na sua obra descreva 57 plantas e remédios orientais(3) Não posso dizer que este tipo de viagens seriam um exemplo de cosmopolitismo, mas de certo modo foi como um abrir de portas para o futuro. O homem já não se via confinado a um espaço físico concreto, descobriu a diversidade, agora tinha opção de escolha. O que distingue este tipo de “ cosmopolitismo “ do praticado na Idade Média é que agora o indivíduo está liberto de pressões metafísicas. Assiste-se ao progressivo despertar da razão, da racionalidade humana. A procura do conhecimento fá-los enfrentar o desconhecido é nesta altura que a ciência começa a ganhar importância, o saber empírico deixa de ser credível. A descoberta e aplicação do método cientifico vai ser uma autentica revolução, a forma como se constrói a ciência vais ser completamente reformulada. No século XVII, o “ cosmopolita” já esta liberto de toda e qualquer prisão de ordem moral, ele assume já uma componente universalista e individual(4).Nesta altura aumentam o número de expedições coloniais de caracter naturalista, existe uma necessidade crescente de classificar, datar, enumerar, de desvendar os segredos da natureza. Ingleses, Holandeses e Franceses estudam, a história natural do nordeste brasileiro (Wilhem Piso 1611-1678); das Antilhas Francesas( Durtertre 1610-1704); Martinica e Haití (Plumier 1689). Publicam-se obras de história natural, dos diferentes territórios do Globo. Este tipo de viagens é uma forma de cosmopolitismo intelectual e cultural, o indivíduo dotado de razão privilegia o estudo da natureza visando a utilidade pública e a felicidade colectiva. Século XVIII, cresce o interesse pelas ciências naturais. Espanha adere tardiamente à aventura expedicionária, é com a dinastia de Bourbon que se iniciam as grandes expedições científicas ao Novo–Mundo. Contudo não serão publicadas obras de grande relevo, reduzindo-se a uma actividade meramente recolectora. Na Europa, surgem grandes naturalistas como Linné ( figura de referência nos dias de hoje) e grandes obras de caracter naturalista, enciclopédias e histórias naturais. A Botânica a Biologia ganham o estatuto de ciências. Com o Iluminismo pretende-se uma reforma da sociedade e a felicidade do todo social. Estes novos conhecimentos vindos de zonas distantes, vão trazer, para o “cidadão” comum alento e esperança no futuro. A ciência passa a ser do domínio de todos e sobre ela recaem um sem fim de expectativas. Em Espanha por impulso do governo são reformuladas as universidades, o ensino escolástico é posto de parte, estas são dotadas de bibliotecas, telescópios, gabinetes. São criadas escolas de medicina nomeadamente as escolas militares de medicina. Criam-se os primeiros Jardins Botânicos, os laboratórios de Ciências Naturais as Academias a Real Biblioteca. Existe um claro investimento por parte dos governos nas ciências e nas artes. Em Portugal, com a reforma do Pombalina são criados o Real Jardim Botânico da Ajuda e o Real Gabinete de história Natural. È neste período que se dá e reforma das universidades e se cria a Faculdade de Filosofia, destinada ao ensino das ciências naturais. O cosmopolitismo adquire uma nova faceta, surge como uma solução política, cultural e espiritual. Desenrola-se especialmente nas monarquias centralizadores. O período Iluminista Espanhol, foi marcado pelo reformismo bourbónico, Carlos III foi o protótipo de um absolutista ilustrado. O despotismo ilustrado não era propriamente uma doutrina política , mas um estilo de governo, comum em toda a Europa(5).Servia como elemento de transição entre o feudalismo e o capitalismo, entre o Antigo Regime e a modernidade através da introdução de algumas reformas. Monarcas como Frederico II, Leopoldo de Toscana, José II, Carlos III e governantes como o Marquês de Pombal, Bernardo Tancci tiveram uma atitude reformista, que não se limitava a esfera governamental mas adoptaram medidas progressistas com vista à “ felicidade” dos seus súbditos. Entenda-se que tentativa de proporcionar “felicidade”, tinha como único objectivo a justificação e consolidação do seu poder. No caso particular Espanhol, o reformismo visava a e recuperação do controle imperial, mantendo a estrutura socioeconómica sobre o qual se apoiava. Isto é, manutenção das classes sociais privilegiadas ( nobreza e clero), nos órgãos de governação. Os cosmopolitas são intelectuais, gente das letras , filósofos, cientistas que deslocam-se livremente por toda a Europa onde trocam conhecimentos e experiências. Os salões literários as tertúlias cientificas as academias são espaços culturais por excelência. Os iluministas Espanhóis tentaram reformular a sua sociedade o seu governo a sua economia, e por isso foram chamados de utópicos(6). Mas não será a utopia, uma característica importante para quem busca a felicidade? Coleccionismo e Musealização Com o Iluminismo nasce também o gosto pelo coleccionismo, as viagens o contacto com outras culturas favorece o “intercâmbio” de peças de arte e artefactos tradicionais. O desejo de ter em casa de ter no seu país, peças demonstrativas diversidade cultural, física e étnica faz com que se recolham um sem número de exemplares das mais diversas proveniências e se tragam para a Europa onde são estudados, desenhados e expostos. È no século XVIII, é o mais importante para a história dos museus é neste período que se desenvolvem a bases técnicas da museologia. O gosto pelos clássicos pelo belo vai caracterizar esta época . A Arqueologia nasce nesta altura, são realizadas escavações em busca do passado clássico(Pompeia), das peças imponentes dos tesouros escondidos. Frequentar museus e gabinetes é um sinal de cultura, pois esses locais são considerados espaços de aprendizagem de sociabilidade. Inicialmente os espaços eram apenas para as elites, mas com o evoluir das sociedades permitiu-se o acesso a todo o tipo de público. Em Espanha, já há muito que existia por parte dos monarcas a actividade coleccionista, mas é com os Bourbon que esse gosto se intensifica. Eram conhecidos alguns coleccionadores como o Marques de Urena , Jaime Salvador e Josef Ximenes. O Museu do Prado foi concebido para prestar serviço público não era um local fechado sobre si mesmo mas tinha como objectivo, instruir e proporcionar bem estar e felicidade à comunidade. Para isso procuraram uma colocação racional das obras , elaboraram um catálogo explicativo. Surgem em toda a Europa museus nacionais de elevada qualidade ( Prado, Louvre). O conhecimento, a cultura a ciência, com o Iluminismo, deixaram de pertencer a um grupo restrito e passou a ser um direito de todos.

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